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10.2.12

o anónimo


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SENHOR GARFO E DONA FACA


De prata
Inox ou plástico
Esguios
Altos e magros
Contundentes
Servem frios e quentes
Lado a lado
Como dois amantes
Saciam bocas
Falantes!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOERTAS em 1992)

SENHORA DONA MESA


Vaidosa
Perfumada
Gorda
Magra
Alta
Baixa
Comprida ou esguia
É o centro do mundo
De desabafos e reuniões
E para comilões
De escritos e rabiscos
De recados mal dados
Comendo migalhas de meninos
Que nada sabem comer
Bebendo líquidos entornados
De homens que não sabem beber
Aceitando murros das gentes
De pessoas exigentes
Que não têm dentes
Doentes!
 Foste criada para servir
Sem nada receberes
De vez enquanto
Uma toalha mais bonita
Um castiçal mais engraçado
Um ramo de flores mais perfumado
Um foco de luz mal iluminado
Para ti perdida
Num canto
Por vezes amada
Por vezes desejada!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

SENHORA DONA TRAVESSA


Quando vejo teu corpo
Quente fumegante e perfumado
Vindo ao meu encontro
Sinto quanto prazer carnal
Me vais dar!
Sou levado pelo desejo
Para saborear parte da tua coxa
Lisa e acetinada
Depois de tirar teu collant
Trincar no teu peito ereto
Quente, formoso e belo
Não tirar meus olhos
Da parra que te cobre
Sou levado pelo desejo!
Enquanto isso
Bebo um pouco
Descansando meu corpo
Desejoso
Quiçá mole
Um pouco enfraquecido
Pergunto a mim mesmo
Em silêncio
Porque te prostituis
Porque me obrigas por vezes
Possuir-te demasiado
Desejoso!
Por vezes escondeste
or vezes atiram-te
Por vezes dão pelo teu corpo
Fortunas
Umas frias
Outras fumegantes
Sem nada receberes!
Por vezes e por respeito
Dão-te em troca
Alguns trocos ossais
Pequenos dejetos de pão!
Eu
Por desejo
Sou escravo de ti
Todos os dias te possuindo
E perseguindo
Hoje
Desejoso de teu corpo
Quente
Fumegante e perfumado
Amanhã
Um dia
Quando te deixar
Quando não mais fores
Minha deusa de prazeres
Direi a todos os famintos
Quanto prazer carnal
Me deste!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

SENHORA DONA GARRAFA


Elegante
Frágil e bela
Transparente e bem cintada
Amante de angústias
Volúpias e festins
Hipócrita e sincera
Vaidosa
Com ou sem saia
Eis que vomita sua dor
Cambaleando em gargantas secas!
Sinto quanto me enganas
Tendo corpo sem ser carne
Sendo quente sem ser deusa
Espirituosa sem ter espirito
Agora
Agora vejo teu corpo nu
Tuas linhas simples
E tentadoras
Tua transparência
Agora sim
Agora posso dizer quem és
Desmascarar-te
Bater-te
Violar-te
E quiçá matar!
Eis meus senhores e senhoras
Eis meninos e meninas
Eis que acabou de fazer
O seu fouetter
A estrela deste circo
A estrela da noite
A elegante
A fabulosa
A espetacular
A frágil e bela
A transparente e bem cintada
A amante
De muitas amarguras
Volúpias e festins
Senhora dona garrafa vazia!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)


SENHOR COPO

Deixa-me beber de teu sangue
Sentir tua graduação espremida
Com a força do homem criador!
Copo
Alimenta, satisfaz meu prazer
Faz-me sentir transparente
Como a dor!
Copo
Não me dês lágrimas
Dá-me algo, como o leito de um rio
Faz-me sentir às gargalhadas
Com dor
Amor
Angústia
Paixão
Vida e morte!

 
(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOERTAS em 1992)

9.2.12

HISTÓRIA DE UM TRAÇO

(desenho de Angelo Vaz | estudo | pastel de óleó+carvão sobre papel | colecção do autor)

Traço um traço no traço
E o traço fica traçado
Há um emaranhado de traços
Horizontais e verticais
Aperto as pontas do traço e...
Oiço ais!
Depois de não mais poder traçar
Traço um traço vertical
Traço um traço horizontal
Pego nas pontas do traço
A meio traço o traço
Ficando o traço
Traçado em tracinhos!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS em 1992)

8.2.12

PARA SEMPRE


E depois de tanto tempo passado
Eu parto, eu vou em viagem!
Antes de mim, já muitos partiram
Sem se despedirem, sem nos abraçarem!
O partir é doloroso
E às vezes teimoso, para não mais voltar!
E depois de tanto tempo passado
Eu parto, eu vou em viagem!
Tudo que deixei, tudo que me deram
Tudo ficará na mesma!
E os outros?
Que farão os outros?
Farão o que nunca fiz
Farão o que ninguém fez!
Mas quando?
Não interessa
No dia talvez!
E depois de tanto tempo passado
Eu parto
Eu vou em viagem
Para sempre!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

AVISO AOS HOMENS


Deixai os homens maus
Mas não os esqueçais!

 Deixai-os construir o mundo
Mas não destruir o nosso
Deixai-os rolar pelas ruas
Dá-lhes esmola
Se vos pedir!

 Dá-lhes pão conforme a barriga
Dá-lhes a mão se eles caírem!

 Deixai os homens maus
Mas não os esqueçais!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

PRIMEIRO AMOR

Mulher com livro | Picasso

Por todas as ruas que passes
Direi a toda a gente
Que foste esquartejada
Pelo calor de meu corpo
Enquanto portas se abriam e fechavam!
Esqueceste-te que eras objeto de prazeres
Esqueceste-te que eras miséria dos outros
Esqueceste-te que eras estátua
Fria e abandonada
Esqueceste-te que eras quente
Tornando-te mulher
Sedenta de amor!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

EU...


quero amar
amar alguém
amar alguém que saiba amar
só quero amar
e mais ninguém
amar alguém que saiba amar
amar
amar no mundo em silêncio
amar
e só amar alguém
amar
amar juntamente
amar no mundo e mais ninguém
só quero amar
amar sózinho
amar na rua
fonte ou viela
só quero amar
amar num cantinho
amar o amor amado
que acaba numa cova escura
amar
amar
amar e ser julgado!


(publicado in "  CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

pedido


não quero choros
nas minhas cinzas!

não quero fogueiras
nas minhas cinzas!

não quero naufrágios
nas minhas cinzas!

quero que cada célula
alimente a terra
donde vivo
e esperança de vossa vida!

não quero mais nada ao partir
a não ser esse favor
não quero mais nada ao partir
atendei a meu pedido
como prova de amor!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS em 1992)

grito

(desenho de Angelo Vaz | lápis sobre papel | colecção do autor)

o latir dos cães
em noites de nevoeiro
em noites gélidas
em noites de inverno
são como prostitutas
que se torcem na cama
com fome de carne
de que não gosta!

tem-lhe o gosto do gozo
passageiro
tem-lhe o cheiro de homem
faminto
tem-lhe o prazer
de fazer dinheiro
tem tudo que os cães não têm
o grito
de dor sofrimento!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

homem da rua

Portinari | retirantes


não sei quem fui
não sei quem sou
não sei para onde vou
não sou homem
de carne e osso
não sou homem desta terra!

eu
sou um homem só
não tenho ninguém
não tenho amigos
não tenho quem me veja
só tenho quem me inveja!

eu
 sou gente do diabo
ao lado dos anjos!

eu
sou diabo de gente
escorraçado como um cão!

eu
vida minha
suja e miserável
sou buraco
escuro desta terra
que não me pertence!

eu
sou homem só!

eu
sou homem bom!

eu
sou homem da rua!

eu
não faço mal a ninguém!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)




hora H

óleo sobre tela | Salvador Dali  | o tempo (reflexões)

o tempo passa
a hora...

o tempo esqueço
a hora...

o tempo não pára
a hora...

o tempo virá
a hora...
em que o tempo parará
na hora H!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS " em 1992)

cristo velho

(desenho de Angelo Vaz | cristo | carvão sobre papel | colecção particular - trocado por uma vida)

pela rua principal da cidade
entrei...
meus olhos cairam
meu coração parou!

fulminado pelo cheiro
baleado pelas imagens
gentes e crianças
gritavam silenciadas
molhadas encharcadas
pelo sangue vermelho que abunda pelo corpo!

fulminado pelo cheiro
baleado pelas imagens
gentes e crianças
mutiladas, calcadas, calcinadas e amontoadas
como ossos de animais
num matadouro!

ao longe
um velho
ao lado
um santo de pedra
suas mãos lamentavam-se
na esquina
daquela rua inocente!

o velho
estranha figura de pedra
ao lado do santo de pedra
ao lado das carnes ensanguentadas
tenta evadir-se da rua
das carnes inocentes!

o velho enrugado
traz un saco
um saco enrugado
empastado de dor
o velho enrugado vai enterrar as carnes
das gentes e crianças inocentes
num monte alto da miséria
da miséria dos homens!

(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS em 1992)


poeta enganado

um dia
irás sentir a dor
do medo de viver!

um dia
ao acordares teu corpo
no momento de decisões defeituosas
não roubes a vontade
de minha vida!

não sendo juiz de mim mesmo
nem que seja à tua imagem
não me queiras condenar!

meu caminho
meu destino
não tem cores de bandeira
não é rumo desconhecido
não é coragem enganosa
não é ladrão de ideias
não mora em portas incertas!

neste momento preciso
sou silêncio de alegria
sou sensação de ser perseguido
por ninguém!


(publicado in " A CAMINHO DAS DESCOBERTAS em 1992)

28.1.12

história de um poeta

o poeta
um dia contente
chorou prostrado no palco
ontem disseram-lhe
SIM
hoje disseram-lhe
NÃO!

o poeta
tendo esteios sem vinha
espremeu o fruto azêdo
mastigou e engolui raízes
folhas
flores
e fez dele
sumo doce de poemas!

os homens, não o abandonaram
as imagens não se perderam
as crianças adultas
essas...
ficaram esquecidas!

o poeta
baixo
atarracado e largo
penetrou nas ondas do sofrimento
nevegou atá à última gota!

ao poeta
ontem disseram-lhe
SIM
hoje disseram-lhe
NÃO!

ontem
o poeta morreu
hoje
o poeta está vivo!

(publicado in A CAMINHO DAS DESCOBERTAS em 1992)

noites

não esqueças nunca
a promessa a cumprir!

segue o caminho
que não desviei!

lembra-te das noites
do calor de lua cheia!

da chuva e das estrelas
dos riscos na praia!

do brilho, do mar noturno
das aventuras estragadas!

lembra-te das noites
lembra-te de ti!

(publicado in A CAMINHO DAS DESCOBERTAS em 1992)